Negócios
criados e estabelecidos nas cerca de 400 incubadoras
espalhadas por universidades e parques tecnológicos
de todo o país já movimentam R$ 1,88
bilhão ao ano na economia. O valor é
a soma do faturamento das empresas incubadas, graduadas
e associadas às incubadoras são 6,3
mil empreendimentos, em todos os estados, segundo
dados da Associação Nacional de Entidades
Promotoras de Empreendimentos de Tecnologia Avançada
(Anprotec).
Para pequenos e microempreendimentos em nascimento,
as incubadoras representam um porto seguro, onde
é possível testar produtos e receptividade
do mercado, melhorar práticas gerenciais
e estabelecer parcerias. A inovação
é o principal critério levado em
conta nos disputados processos de seleção.
Quais as vantagens se começar numa incubadora?
A taxa de mortalidade abaixo de 20% de empresas
incubadas é apenas a primeira delas. A
média de incubação no Brasil
é de três anos, período crítico
para a sobrevivência de uma microempresa
no ambiente hostil de negócios nacional.
A possibilidade de contar com profissionais qualificados
e infra-estrutura adequada e estratégica
para o desenvolvimento de produtos também
é forte diferencial. O ambiente flexível
com facilidades como custos fixos menores do que
os de mercado, por serem rateados e até
subsidiados ; a proximidade com pesquisadores
e laboratórios; a assessoria gerencial,
contábil e jurídica; e o acesso
a treinamento também aquecem a procura
pelas incubadoras.
No entanto, conquistar um espaço pode
não ser fácil. A seleção
capta os melhores projetos e seleciona os empreendedores
mais aptos, buscando inovação, um
bom produto inserido em um mercado em crescimento
e um bom time de gestão. Ou seja, não
basta ter uma boa idéia, mesmo que ela
seja nova. É imprescindível haver
orientação para o mercado, resultando
em uma boa oportunidade de negócio.
A consultora de novos negócios Claudia
Pamplona considera favorável o período
de incubação para qualquer pequena
e microempresa, embora essa oportunidade nem sempre
seja percebida pelo segmento. Ela destaca essa
fase do negócio como propícia para
acomodação cultural do novo produto.
'Trata-se de uma fase do planejamento, ainda teórico
em parte, mas que permite o desenvolvimento de
conhecimento empírico. O empreendedor não
irá se comprometer tanto em relação
a investimento e poderá testar as variáveis
que compõe o processo de decisão
de compra de um produto ou serviço, como
preço e local de atuação',
avalia.
Parcerias
A busca por clientes e parcerias com grandes
empresas é mais um desafio a ser enfrentado
pelo empresário, que é facilitada
quando ele está inserido em uma incubadora
de empresas. A PV Inova, incubada no Instituto
Gênesis, da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), desde
agosto de 2004, encontra-se nesse estágio
e destaca o respaldo garantido pelo centro acadêmico
como fonte de valorização no mercado.
'A incubadora e a universidade trazem inúmeros
benefícios a uma empresa nascente, pois,
muitas vezes, tratam-se das únicas marcas
conhecidas associadas a ela, garantindo maior
credibilidade. Muitas de nossas conquistas, inclusive
o Edital de Subvenção Econômica
da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos),
que ganhamos em 2006, talvez não tivessem
sido possíveis sem esse respaldo', afirma
o sócio André Averbug.
O empresário aponta ainda como diferencial
o acesso a centros de pesquisa reconhecidos, como
o Centro de Estudos em Telecomunicações
da PUC-Rio (Cetuc), e a consultoria de pesquisadores
e professores dos departamentos de informática
e engenharia da universidade. 'A incubação
nos coloca em contato com outras empresas iniciantes,
promovendo a possibilidade de trocas de conhecimento,
informações e oportunidades. Inclusive,
uma de nossas principais parceiras de desenvolvimento
é outra empresa incubada, com a qual temos
reuniões quase diárias', acrescenta
o empresário, que é economista.
A proposta da PV Inova é desenvolver soluções
inovadoras para o transporte coletivo, beneficiando
passageiros e empresas. O primeiro produto, já
lançado, é o Télo, um telefone
público celular desenvolvido especialmente
para veículos do tipo. O aparelho funciona
como um orelhão comum e permite ao passageiro
aproveitar seu tempo no traslado para fazer ligações
mais baratas do que as cobradas nos celulares
pré-pagos. O Télo já foi
lançado em Porto Alegre, em parceria com
a Brasil Telecom e a Carris, e no Rio de Janeiro,
durante os Jogos Pan-Americanos 2007, com o Metrô
Rio. Em duas semanas, um piloto será lançado
em Santiago do Chile.
Também foi desenvolvido o TéloTrack,
sistema de rastreamento de veículos e gestão
de frota oferecido a empresas de transporte. Vem
sendo preparado ainda o TéloTv, que contará
com um inovador sistema de gestão de conteúdo.
Ao longo dos pouco mais de três anos de
existência da empresa, foram investidos
cerca de R$ 2 milhões, principalmente em
pesquisa e desenvolvimento, marketing e equipamentos.
Segurança
Por ser uma empresa de desenvolvimento de alta
tecnologia, outra vantagem garantida pela incubadora
se refere à segurança dos equipamentos.
O mesmo ocorre com a Cryopraxis, que trabalha
com a coleta e armazenagem de células tronco.
Já graduada, a empresa foi instalada na
BioRio, incubadora de empresas de biotecnologia
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Foram investidos cerca de US$ 2 milhões
para a abertura do negócio, capital próprio
de seus fundadores. O único apoio que tiveram
foi em relação às condições
de pagamento dos itens utilizados no processo,
negociadas juntos aos fornecedores.
A empresa começou a ser idealizada em
1998, mas só foi aberta em 2001, período
no qual os profissionais estruturaram os procedimentos
necessários à atividade, bastante
incipiente na época. A maior parte dos
investimentos na empresa se referiu à validação
de procedimentos de processamento amostral, o
que lhe garantiu projeção internacional.
'Tínhamos que desenvolver uma tecnologia
baseada em boas práticas para garantirmos
a qualidade do nosso produto, assim como a confiança
do mercado', explica Eduardo Cruz, sócio
da Cryopraxis. A empresa abriu suas portas com
quatro colaboradores e hoje tem aproximadamente
100 funcionários.
Em todo o mundo, o empreendedorismo nas universidades
é mais desenvolvido no segmento tecnológico.
Nesse ambiente de tecnologia, surgem muitas oportunidades
de negócios inovadores, além de
existir grande demanda por esses produtos. De
acordo com representantes das incubadoras esse
movimento não foi calculado, mas espontâneo,
e começa a mudar. Outros setores já
apresentam iniciativas empreendedoras inseridas
em incubadoras, inclusive no formato de cooperativas.
Social
Um desses casos é a Cooperativa da Praia
Vermelha, que executa um trabalho de inserção
social de usuários da Rede de Saúde
Mental do Rio. Pessoas com distúrbios e
doenças mentais produzem alimentos à
base de castanha e cupuaçu que são
vendidos em algumas lanchonetes e restaurantes.
Hoje o projeto, incubado há dez anos no
Incubadora Tecnológica de Cooperativas
Populares (ITCP) da Coppe da UFRJ, já é
auto-sustentável e gera uma renda simbólica
aos trabalhadores.
O objetivo atual é a independência,
já que o projeto ainda utiliza as dependências
do Instituto Municipal Philippe Pinel. 'A dificuldade
maior enfrentada pela empresa é o escoamento
dos produtos, já que temos capacidade para
produzir mais', afirma Vera Lobato, coordenadora
do projeto e terapeuta ocupacional.
Outro exemplo é a Maddalena Chianello
Jóias, uma das empresas recém-incubadas
na Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro.
A idéia simples, mas inovadora, da designer
de anexar à jóia personalizada a
história da peça chamou atenção
de joalheiros italianos que convidaram a designer
para estágio de um mês. A empresária
investiu R$ 3 mil na empresa e está na
Itália fazendo um curso.
'Meu intuito é ver como funciona o mercado
italiano e buscar idéias inovadoras, não
só no sistema de relacionamento com o cliente
e outras, mas também quanto a novas técnicas
construtivas de jóias, tanto no design
quanto na produção', afirma Madalena,
em entrevista por e-mail.